Ordem

SACRAMENTO DA ORDEM

"Um filho do Imaculado Coração de Maria é um homem que arde em caridade e abrasa por onde passa. Que deseja eficazmente e procura por todos os meios inflamar o mundo inteiro no fogo do amor divino". Sto. Claret

“A Ordem é o Sacramento graças ao qual a missão confiada por Cristo a seus Apóstolos continua sendo exercida na Igreja até o fim dos tempos; é, portanto, sacramento do ministério apostólico” (CIC, 1536).

Jesus Único e Eterno Sacerdote:

De um modo geral a razão de ser do sacerdote era ser o mediador entre os homens e Deus: dirigia‐se a Deus pelo culto (orações, sacrifício) em nome dos homens e dirigia‐ se aos homens falando em nome de Deus. Embora Jesus nunca tivesse exercido no Templo a função sacerdotal ritual, toda a atitude e palavras d’Ele, em vida, davam a entender que ele seria o Mediador: a oração sacerdotal de Jesus na “quinta‐feira‐santa” em João 17, começando por dizer “Pai, chegou a hora...”; e na “sexta‐feira‐santa” lá está ele no Calvário, no altar da cruz. Em outras palavras, é essa ação sacerdotal de Jesus que Hb 5,7‐10 descreve: “Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que tinha poder se salvá‐lo da morte. E foi atendido, por causa de sua piedade. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência, por aquilo que Ele sofreu. Mas, quando levou a termo sua vida, tornou‐se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem. De fato, Ele foi por Deus proclamado sumo sacerdote segundo a ordem de Mesquisedec”. Outra coisa que a Carta aos Hebreus quer deixar clara é que Jesus é sacerdote não da ordem de Levi, mas da ordem de Melquisedec, ou seja, não provindo de uma ordem humana, mas do puro mistério, isto é, do céu, de Deus mesmo. É um sacerdócio não legal, mas espiritual. É o sacerdócio verdadeiro, por excelência, do qual o antigo sacerdócio era apenas sombra e o atual sacerdócio é conseqüência.Com essas palavras e esse gesto Ele foi o grande, eterno e único Mediador e Sacerdote, pondo o ponto final no AT, abolindo o sacerdócio mosaico, substituindo ele mesmo todos os sacerdotes e todas as vítimas.   Ele se coloca no lugar do sacerdote, no lugar das vítimas e ofereceu‐se no altar da cruz, como bem revela o Missal Romano no Prefácio V da Páscoa: “Confiante (Jesus) entregou em vossas mãos (do Pai) seu espírito, cumprindo inteiramente vossa santa vontade, revelando‐se ao mesmo tempo sacerdote, altar e cordeiro”.

Os Apóstolos, sucessores de Cristo Sacerdote:

Jesus entregou a mãos humanas os poderes sacerdotais que Ele mesmo tem. Escolheu seus representantes, seus sucessores como sacerdotes, como evidenciam claramente os Evangelhos. Em Mc 3,13‐19 Jesus escolheu 12 apóstolos (lembra as 12 tribos de Israel). Essa  escolha  sublinha  a  iniciativa  do  alto:  “Não fostes  vós  que me  escolhestes, mas  fui  eu  que vos escolhi...” (Jo 15,16). 12 é um número simbólico na Bíblia: é número de círculo completo, perfeição. A Igreja é o novo Israel, o novo povo de Deus: nos 12 está toda a Igreja em germe. Em Lc 10,16 Jesus diz aos apóstolos: “quem vos ouve, a mim ouve”. Na Última Ceia Ele concede o poder sacerdotal aos apóstolos, “ordena‐os” para perpetuar o memorial da sua Páscoa com a celebração da Eucaristia: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19 e 1Cor 11,24). Com uma palavra, “faça‐se”,lá no início do livro do Gênesis, Deus fez o mundo com todas as suas maravilhas. Com poucas palavras, “Fazei isto”, Jesus passa aos apóstolos o poder sacerdotal na sua expressão mais alta: transformar o pão e o vinho no corpo e no sangue do Senhor. Os apóstolos tornam‐se sacerdotes.

Sacramento da “Ordem”:

Esse nome pode ser uma alusão oriunda da expressão “Segundo a ordem de Melquisedec”, citada pelo Sl 110,4 e Hb 5,6.10; 7,11.17, para designar o sacerdócio de Cristo. Na antiguidade romana a palavra “ordem” “designava corpos constituídos no sentido civil, sobretudo o corpo dos que governam. ‘Ordinatio’ (ordenação) designa a integração num ‘ordo’ (ordem)” (CIC 1537). Na Igreja há tradicionais corpos constituídos com fundamentos bíblicos: “do ‘ordo episcoporum’ (ordem dos bispos), do ‘ordo presbyterorum’ (ordem dos presbíteros), do ‘ordo diaconorum’ (ordem dos diáconos). Outros grupos também recebem este nome de “ordo”: os catecúmenos, as virgens, os esposos, as viúvas etc” (CIC 1537).

Função do Sacerdote:

Com participante do sacerdócio de Cristo, único e eterno sacerdote, o sacerdote tem a função de ser guia, mediador entre a Deus e a humanidade (e vice‐versa), e sempre exercer um ministério inerente ao seu ofício: o da comunhão e da unidade. A Carta aos Hebreus revela bem a missão sacerdotal: “Todo sumo sacerdote, tirado do meio dos homens, é constituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus. A sua função é exercer dons e sacrifícios pelos pecados. Desse modo, ele é capaz de sentir justa compaixão por aqueles que ignoram e erram, porque também ele próprio está cercado de fraqueza; e, por causa disso, ele deve oferecer sacrifícios tanto pelos próprios pecados como pelos pecados do povo. Ninguém pode atribuir a si mesmo essa honra se não for chamado por Deus...” (Hb 5,1‐4).  Exige‐se do sacerdote que seja modelo de humanidade, solidário com as alegrias e sofrimentos de todos, respeitando cuidadosamente a vocação de cada um e, ao mesmo tempo, sendo testemunha do dom recebido do alto, como representante vivo do Cristo Pastor que, ao contrário dos ladrões e mercenários (Jo 101,10), oferece a vida pelos seus e os reconcilia com Deus. Com mansidão e humildade o sacerdote deve, como Paulo, dizer de si próprio: “Não tencionamos dominar vossa fé, mas colaborarmos para que tenhais alegria” (2Cor 2,24).

Representante do Cristo‐Cabeça:

A ordenação presbiteral torna o sacerdote semelhante a Cristo, cabeça do corpo que é a Igreja, a fim de que se torne capaz de agir como se representante em prol do progresso da unidade da Igreja, anunciando com autoridade a Palavra de Deus, presidindo a liturgia e responsabilizando‐se, como pastor, pela comunidade, afastando demônios, sendo médico da alma, . Esta consagração do candidato  ao serviço de Deus e da Igreja é tão profunda e definitiva que lhe recebe o nome de caráter, isto é, um sinal indelével (que não se apaga). Por isso, a vida do sacerdote deve ser uma recordação viva do Salvador, vivendo autenticamente o seguimento de Jesus. O sacerdote deve ser homem de fronteira, empenhado na contínua intermediação que ele, representando a Cabeça que é Cristo, desenvolve entre os homens e Deus; é chamado a viver sua própria vida em favor dos outros, não, é claro, em ritmo de fácil segurança, mas, sim, em ritmo de risco, audácia e descoberta que revolucionam a lógica moderna do lucro, antepondo a ela a beleza – que chega a ser sedutora – da doação. A força do presbítero está exatamente na sua fraqueza: o que lhe dá crédito é exatamente o serviço que ele presta à unidade e à comunhão, o seu viver em prol dos outros, sem precisar fazer as preferências de ninguém.

O Presbítero

“O presbítero precisa ser ao mesmo tempo pequeno e grande, nobre de espírito como alguém de sangue real, simples e natural como os de origem rústica, um herói na conquista de si próprio, um homem que já travou luta com Deus, uma fonte de santificação, um pecador a quem Deus perdoou, senhor dos seus desejos, servo dos tímidos e fracos, alguém que não se humilha perante os poderosos mas que ser curva perante os pobres, discípulo do seu Senhor, o líder do seu rebanho, um mendigo de mãos generosamente abertas, um portador de inumeráveis dádivas, um homem em pleno campo de batalha, uma mão para confortar os doentes, tendo a sabedoria dos adultos e a confiança de um menino, voltado para o alto mas com os pés na terra, feito para a alegria, conhecedor do sofrimento, distante de qualquer inveja, previdente, que fala com franqueza, um amigo da paz, um inimigo da indolência, fiel para sempre... Tão diferente daquele que eu sou!” (de um manuscrito medieval encontrado em Salzburgo, Áustria).

A Celebração do Sacramento:

Viver as implicações do sacerdócio não é fruto da capacidade humana, mas provém de Deus: é o que expressa a liturgia da ordenação presbiteral que, segundo uma antiga tradição, é conferida durante a celebração da Eucaristia. O momento inicial quando o candidato é chamado pelo nome – que é um eco da iniciativa do Senhor que os escolheu – é seguido pelo das invocações da ladainha, através da qual a Igreja inteira suplica pelo dom que está para lhe ser concedido, mediando a ordenação de um novo ministro. Finalmente vem o momento supremo e essencial da ordenação sacerdotal:

  • A Imposição das mãos: O bispo que ordena, em silêncio, impõe as duas mãos sobre a cabeça do ordenando, mesmo gesto que faziam na Igreja primitiva, quando eram os apóstolos que conferiam o dom do ministério: “Eu te convido a reavivares o dom de Deus que está em ti pela imposição das minhas mãos” (2Tm 1,6; cf. também 1Tm 4,14); Paulo, apóstolo do Senhor, também recebeu a imposição das mãos de Ananias para que ficasse “cheio do espírito Santo” (At 9,17). Em seguida, todos os sacerdotes presentes, individualmente, impõem as duas mãos sobre ele.  Todos os que impuseram as mãos permanecem com uma das mãos elevada à altura dos ombros até que o bispo conclui esse momento com uma oração que, juntamente com a imposição das mãos, constitui a forma essencial da ordenação. Feito isso, o que foi ordenado é sacerdote: “A imposição das mãos do Bispo, com a oração consecratória, constitui o sinal visível desta consagração” (CIC 1538). Isso é garantido pela sucessão episcopal, que é a transmissão viva do carisma do ministério através da seqüência ininterrupta dos sucessores dos apóstolos, é o elemento histórico que testemunha, torna visível e garante a continuidade da Igreja na tradição dos apóstolos, isto é, sua permanência dentro das características fundamentais daquela continuidade confiada aos Doze por Jesus.
  • A Unção das mãos: As palmas das mãos são ungidas pelo bispo, que profere as palavras: “Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo, e revestiu de poder, te guarde para a santificação do povo fiel e para oferecer a Deus o santo sacrifício”. Portanto, o ordenado é ungido, consagrado, para bem exercer a sua missão sacerdotal. Há ainda outros ritos complementares: entrega das vestes sacerdotais, do cálice com vinho, da patena com a hóstia etc..