Unção dos Enfermos

SACRAMENTO DA UNÇÃO DOS ENFERMOS

“A unção dos enfermos, pela qual a Igreja recomenda ao Senhor sofredor e glorificado os fiéis gravemente doentes, para que os alivie e salve, confere‐se ungindo‐os com óleo e proferindo as palavras prescritas nos livros litúrgicos” (CDC, Cânon 999).

O Sacramento da Unção dos Enfermos vem ao encontro da fraqueza e fragilidade da criatura nas horas de doença e enfermidade. Ele manifesta a misericórdia do Senhor que cura, conforta, fortalece e alivia.

Os Doentes no contexto Bíblico:

No Antigo Testamento bem como no tempo de Jesus, os doentes e deficientes físicos eram excluídos da sociedade e proibidos de participarem das assembléias religiosas. Os textos essênicos da Tradição judaico‐farisaica eram de uma dureza incrível: “Todos os que sofrem de qualquer humana impureza não podem participar da assembléia de Deus. Todos os que foram atingidos no corpo, os defeituosos de mãos e pés, os mancos, os cegos ou surdos ou com defeitos físicos visíveis ou um velho decrépito que não possa parar de pé na comunidade reunida, esses todos não podem colocar‐se no meio da assembléia... porque os santos e santas estão nesta comunidade”. Toda e qualquer doença, na mentalidade dos judeus, era tida como um castigo. Em Jo 9,1‐2 aparece clara essa idéia, quando os discípulos perguntam a Jesus de quem era a culpa, do cego mesmo ou dos pais dele.

O cuidado com os Enfermos e a Unção na Bíblia:

  • Jesus e os Enfermos: “Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas e pregando o Evangelho do Reino, enquanto curava toda a sorte de doenças e enfermidades” (Mt
  • 9,35). A atitude de Jesus contrariava todo o modo de pensar e agir dos judeus, pois Ele acolhia, tocava, curava, entrava na casa e até comia com os “pecadores”. Os judeus ficavam escandalizados. Para eles Jesus estava “subvertendo” a ordem e a tradição judaica.
  • Jesus confiou a mesma missão aos Apóstolos: Esse carinho e esse cuidado especial com os doentes Jesus o transmite aos Apóstolos: “Chamou os dozes discípulos e deu‐lhes o poder para expulsarem os espíritos imundos e para curarem toda sorte de males e enfermidades... Jesus enviou esses doze com estas recomendações: ‘Ide e proclamai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios’” (Mt 10,1.5.7s; cf. Lc 9,1.6). Os apóstolos cumprem esta ordem, utilizando também o sinal da unção: “Partindo, eles pregavam que todos se arrependessem. E expulsavam muitos demônios, e curavam muitos enfermos, ungindo‐os com óleo” (Mc 6,12s).
  • Praxe da Igreja Primitiva: A Carta de Tiago atesta como essa praxe prossegue na fase inicial da Igreja: “Alguém dentre vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja para que orem sobre ele, ungindo‐o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o porá de pé; e, se tiver cometido pecados, estes serão perdoados” (Tg 5,14s). Hoje a Igreja continua anunciando e realizando essa ação misericordiosa junto dos doentes através do Sacramento da Unção dos enfermos.

A Celebração do Sacramento:

“As unções sejam feitas cuidadosamente, com as palavras, a ordem e o modo prescritos nos livros litúrgicos; em caso de necessidade, porém, basta uma só unção na fronte, ou mesmo em outra parte do corpo, pronunciando‐se igualmente a fórmula” (CDC, Cânon 1000). Na maior parte dos casos, em enfermos internados em hospitais, muitas vezes na UTI, o padre ministra a Unção somente com os gestos: 1) imposição das mãos invocando 3 vezes: “Senhor... Cristo.. Senhor... Tende piedade dele(a)”. Quando o enfermo tem condições de falar ele mesmo repete 3 vezes com o padre: “Senhor... Cristo.. Senhor... tende piedade de mim”. Em seguida se faz a Unção com o óleo na fronte (e quando  possível  também  nas  mãos)  proferindo  a  fórmula:  “Por  esta  Santa  Unção  e  sua  infinita misericórdia o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo. Para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve e, na sua bondade, alivie os teus sofrimentos”. Por fim faz a bênção final. “Pode‐se repetir esse sacramento se o doente, depois de ter convalescido, recair em doença grave, ou durante a mesma enfermidade, se o perigo se agravar” (CDC, Cânon 1005 e CIC 1535). A Unção na fronte e nas mãos resume o sentir e o agir humano, pois as idéias nascem da cabeça (fronte) e pelas mãos se transforma em obras.

O Óleo da Unção:

É de oliveira, benzido pelo Bispo na Quinta‐feira Santa, dia em que se comemora a Instituição da Eucaristia, com orações visando especificamente o seu uso para os efeitos de Santa Unção. (Cf. o significado da “unção” no Capítulo II, “Batismo”, nºs 14 e 15 “d”, págs. 12 e 13 desta apostila). Pela oração dos presbíteros e a Unção com óleo, a Igreja toda entrega os doentes aos cuidados do Senhor sofredor e glorificado, para que os alivie e salve: “... tomando parte nos sofrimentos de Cristo, vamos participar tambémda sua glória” (Rm 8,17).

Os efeitos da Unção dos Enfermos: A fé da Igreja reconhece na unção e oração feitas pelo sacerdote sobre o enfermo o sinal sacramental do advento da graça em socorro da fraqueza e da doença, que tão violentamente  marcam  a  situação  do  ser  humano.  Ela  manifesta  a  possibilidade  de  um  sofrimento salvífico, através do qual o cristão, escondido com Cristo em Deus, vivencia a experiência da enfermidade, como  uma  oferta  de  amor  ao  Pai  e  uma  comunhão  solidária  com  os  demais  seres  humanos, transformando a dor em amor e aceitando os benefícios da cura e da vida, que o Deus vivo é capaz de produzir no íntimo da alma e até mesmo na sua irradiação pelo corpo. Os seus principais efeitos são:

  • Une o doente à Paixão de Cristo, para seu bem e de toda a Igreja (CIC 1531), como revelou Paulo a respeito dos próprios sofrimentos: “Agora me alegro nos sofrimentos que suporto por vocês e vou completando na minha vida mortal o que falta aos sofrimentos de Cristo, em favor do seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24).
  • Dá ao doente conforto, paz e coragem para suportar cristãmente os sofrimentos da doença ou da velhice (CIC 1531).
  • Traz ao doente o perdão dos pecados, se ele não pôde obtê‐lo pelo sacramento da Penitência (CIC
  • 1531); “E, se (o doente) tiver cometido pecados, estes serão perdoados” (Tg 5,14). Neste sentido, a Santa Unção supre tudo aquilo que o doente, em termos de Confissão, deixou de fazer, sem culpa sua, por exemplo, por fraqueza corporal ou espiritual, incapacidade de falar, doença ou confusão mental, etc.… Por isso  se diz que este Sacramento é a Penitência dos Doentes.
  • Dá ao doente o restabelecimento da saúde, se tal é conveniente à sua salvação. e) Concede ao doente a preparação para a passagem à Vida Eterna (CIC 1531).
  • Fortalece o doente para que o mal e a tentação não o dominem num momento de vulnerabilidade física e até mesmo espiritual, e para que consiga superar a impaciência, o nervosismo, o medo, a angústia e mantenha e seu coração a serenidade e a paz de Deus.
  • A Santa Unção aumenta no doente a graça santificante, através da qual o doente atinge um novo grau no Amor de Deus e esse grau superior no Amor permite‐lhe alcançar maior glória no Céu.
  • Nos casos de doença grave que se prevê que conduza à morte, a eficácia da santa Unção é reforçada pela recepção da Eucaristia, que nesse caso toma o nome de Viático (que singifica “provisão de caminho”), que é, no fim de contas, receber Jesus como Companheiro  de Viagem nessa via para a eternidade. “Assim como os Sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia constituem uma unidade chamada “os sacramentos da iniciação cristã”, pode‐se dizer que a Penitência, a Sagrada Unção e a Eucaristia, como viático, constituem, quando a vida cristã chega ao término, ‘os sacramentos que preparam para a Pátria’ ou os sacramentos que consumam a peregrinação” (CIC 1525).
  • De forma indireta também os familiares do doente se sentem confortados, pelo fato de saberem que a pessoa que tanto amam foi fortalecida com a graça sacramental e curativa de Deus.

Resposta do Enfermo:

A celebração da Unção dos Enfermos requer da parte do enfermo uma fé profunda que reconhece a bondade divina até no tempo da doença e, também, uma confiança tão grande que, com a oferta e entrega de si próprio, deixa a alma aberta para todas as possíveis surpresas do Eterno: “Eu confio em Javé, que esconde sua face à casa de Jacó, e nele espero” (Is 8,17). Para quem acredita em Deus e nele confia ilimitadamente, nada jamais ficará perdido: nem mesmo a aparente inutilidade da trilha dolorosa da doença e da enfermidade.

Ministro do Sacramento:

“Todo sacerdote, e somente ele, pode administrar validamente a unção dos enfermos” (CDC, Cânon 1003, par. 1). Esse Sacramento perdoa os pecados quando o enfermo está impossibilitado de se confessar (CIC 1532).

Quem pode e deve receber esse Sacramento:

Todo católico, batizado, que “Corre perigo de morte por motivo de doença, debilitação física ou velhice” (CIC 1514). “Permite‐se receber a Unção dos Enfermos antes de uma cirurgia de alto risco. O mesmo vale também para as pessoas de idade avançadas cuja fragilidade se acentua” (CIC 1515).

Evitar duas atitudes:

1ª) Nunca chamar o padre para ministrar a Unção. Muita gente não faz isso por relaxo ou porque não quer “assustar” o doente que poderia pensar que está prestes a morrer. Seria suficiente explicar ao doente que a Unção não é o sacramento da despedida, ou do “despacho”, mas uma graça curativa de Deus buscando obter conforto, fortaleza e vida. Ciente disto certamente o doente não vai recusar o Sacramento.

2º) Chamar o padre quando já é tarde demais, quando a pessoa está nas últimas e já nem bem mais pode ouvir as orações e experimentar conscientemente os efeitos da graça da Unção. É claro que há situações que não dependem de nós, como no caso de desastres e doenças repentinas. Entretanto, no que depender de nós e sempre que possível, tenhamos atitudes esclarecidas, adultas e caridosas com os doentes em bom tempo hábil dele também aproveitar conscientemente desta misericordiosa celebração.

Informação complementar sobre a intenção de Missa pelos falecidos:

Os pagãos gregos acreditavam que no 3º dia após a morte começava a deterioração do corpo; no 7º dia dava‐se o auje da deterioração; e no 30º dia terminava a deterioração do cadáver. Com essa crença, os pagãos ofereciam então sacrifícios sobre o túmulo do falecido, no 3º, no 7º e no 30º dia. A Igreja, usando sabiamente a pedagogia da inculturação da fé, cristianizou esses costumes com as Missas pelos falecidos, rezando por eles, de modo especial, no 3º, no 7º e no 30º dia. Nos dias atuais já não existe mais o costume de celebrar intenção de Missa pelo 3º dia de falecimento.